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SEDE DA COPA E TROCA DE MODAL

Bonilha confirma ‘lobby’ e Sachetti diz que mudança para VLT foi assustadora

Gcom

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Obras da Copa colheu depoimento do ex-presidente da Agecopa, deputado federal Adilton Sachetti que considerou haver motivações escusas para a troca do modal BRT para VLT.

Além dele, o ex-diretor de articulação da Agecopa, Agripino Bonilha, também foi ouvido na sessão de hoje (27), em que confirmou carta de João Havelange que garantia Cuiabá enquanto cidade-sede e destacou à imprensa, que se não houvesse ‘lobby’, a Copa do Mundo não seria realizada em Mato Grosso, pois a escolha foi política e não técnica.

Além dos dois, também foi ouvido o servidor de carreira do Estado, que foi ordenador de despesas em contratos firmados com a Secretaria de Turismo (Sedtur), Deocleciano Ferreira.

O servidor ressaltou que atestou os pagamentos, conforme recebia o objeto dos contratos, porém, não possui qualificação técnica na área de engenharia, e não havia laudos de engenheiros nos relatórios apresentados.

Para o presidente da CPI, deputado Oscar Bezerra (PSB), o depoimento de Deocleciano Ferreira demonstrou protecionismo ao ex-secretário de Turismo Yuri Bastos.

“Ficou evidenciado que o servidor apenas atestava aquilo que o gestor determinava, tendo em vista que não há sequer um laudo de engenharia garantindo que o objeto contratual foi cumprido”, observou.

Depoimento Agripino Bonilha

Mesmo com a confirmação de que João Havelange, presidente de honra da FIFA, havia encaminhado carta garantindo Cuiabá no Mundial, Bonilha garantiu que não existe qualquer indício de que as sedes foram vendidas.

Conforme relato do ex-diretor, participou de reunião com membros da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) no Rio de Janeiro e conversou com entusiasmo sobre os potenciais do Estado para recepcionar a Copa do Mundo.

Com isso, os membros da CBF explicaram os principais empecilhos para Cuiabá vencer a disputa para subsidiar os jogos.

“Cuiabá e Manaus não eram interessantes para a FIFA, dentro do seu enfoque, pois era preciso que as sedes tivessem mercado, o que não ocorria aqui. A FIFA também estava organizando de forma a facilitar as visitas, por isso, a ideia era que as cidades fossem próximas, para não gastar mais tempo e dinheiro com a locomoção dos torcedores, então eles formavam um corredor, em que entrariam as cidades de Goiânia e Florianópolis, que possuem uma infraestrutura superior”, destacou.

Segundo Bonilha, incluir Cuiabá e Manaus para inserir o Pantanal e a Amazônia quebrava este corredor pensado pela FIFA.

“Era uma estratégia de espaço, e Cuiabá e Manaus não davam esta resposta positiva e nem com relação ao consumo. E outro argumento para não se realizar os jogos aqui, era que as sedes deveriam ter um futebol de alto nível, e a infraestrutura, então porque colocar Cuiabá? Voltei de cabeça baixa desta reunião”, afirmou.

Bonilha prosseguiu explicando a relação pessoal com o presidente de honra da FIFA que a comandou por mais de 20 anos, João Havelange, com o qual cursou faculdade e inclusive, morou em sua residência.

O ex-diretor também esclareceu que foi Havelange quem elegeu Joseph Blatter para a presidência por unanimidade.

“Mandei um artigo para o Havelange defendendo a tese de que a Copa do Mundo poderia usufruir do turismo, e tivessem a atenção voltada para estas características e propor à FIFA uma causa e permitir que mesmo reduzindo lucros da Copa, era preciso mostrar Pantanal e Amazônia para o mundo. A discussão sequer era sobre Cuiabá, pois era preciso consubstanciar o argumento”, disse.

De acordo com Bonilha, em reunião com o secretário de Turismo, Yuri Bastos, Havelange afirmou que o governo precisava tratar apenas dois pontos para poder receber a Copa do Mundo, sendo o estádio para realização dos jogos e o aeroporto.

“O ex-governador Blairo destacou que seria criada uma Agência colegiada com disposição de R$1 bilhão em recursos para investimento, depois disso, o Havelange ficou de falar com o Blatter, e foi aí que recebi uma carta dele, mas já eliminei a mesma, pois me deu muita dor de cabeça. Foi esta a carta que o Blairo leu, mas não dava a consciência definitiva que teríamos a Copa, o teor era que Havelange havia conversado com Blatter e apresentou a tese sobre Amazônia e Pantanal, e que o mesmo havia achado a ideia magnífica, mas não deu uma resposta definitiva. Nesta carta, Havelange dizia também ‘fique tranqüilo, com relação à escolha do seu Estado’. Então no meu entendimento, era definitiva a vinda da Copa”, garantiu.

Bonilha também ressaltou que havia impeditivo com a CBF e o então presidente Ricardo Teixeira, mas que Havelange declarou que iria contornar o documento preliminar com afirmações negativas sobre Cuiabá, em que ressaltava positivamente Goiânia e Florianópolis.

“Em janeiro de 2009, recebi a carta em que ele pediu para não divulgar para não atrapalhar as conversações. A escolha não foi técnica, foi política, por um pedido do então governador Blairo. A escolha foi política, porque Cuiabá não tinha condições nenhuma de ser sede, e só fomos por isso”, alegou.

O ex-diretor observou que em entrevistas, Havelange disse que fez um único pedido à Blatter, que era inserir Cuiabá e Manaus na Copa do Mundo, para representar Pantanal e Amazônia, respectivamente. “O Havelange fez do Blatter presidente, ele não teria como negar seu pedido”, reforçou.

Depoimento Adilton Sachetti

Em depoimento à CPI da Copa, o ex-presidente da Agecopa Adilton Sachetti, relatou que o objetivo da Agência era realizar as obras para o Mundial, porém, as mesmas não se concretizaram, pois ao invés de pensarem no evento, começou a se pensar em política.

Com divergências internas entre os sete diretores que tomavam decisões de maneira colegiada, Sachetti fez um panorama do cenário que resultou em sua saída, ao destacar que mesmo as decisões fossem colegiadas, a assinatura para ordenação de despesas era do presidente, ou seja, as decisões eram de todos, mas a responsabilidade recaía apenas para si.

“Se eu não concordava, dava início aos confrontos e enfrentamentos, que deixaram a situação na Agecopa insustentável, afinal, era apenas o presidente que tinha responsabilidade legal e que iria responder por todos os atos”, disse.

Para Sachetti, o modelo proposto para a Agecopa foi um erro, uma vez que não era possível montar um organograma de responsabilidades.

Com relação à troca do modal BRT para VLT, Sachetti ponderou que durante sua gestão nunca houve conversações oficiais sobre esta possibilidade, mas que ao deixar o cargo na Agecopa, percebeu que a tratativa do VLT andou de forma assustadora.

“O que me faz crer que havia alguém por trás, alguma motivação escusa, porque o nosso compromisso firmado em Matriz de Responsabilidade com a FIFA era do BRT, que inclusive estávamos aproveitando um estudo que durante 10 anos já se pensava no modal BRT para atender Cuiabá, em parceria da Prefeitura com Ministério das Cidades. Pegamos tudo praticamente pronto, nós só iríamos executar pela Copa do Mundo aquilo que já havia sido pensado para atender a população”, relatou.

Além disso, o ex-presidente da Agecopa observou que possui formação acadêmica em Arquitetura e Urbanismo, e que por sua função profissional, já tinha conhecimento de que em nenhum lugar do mundo, o VLT possui viabilidade financeira-econômica. “Porque Cuiabá teria esse privilégio se em nenhum lugar do mundo deu certo”, questionou.

Sachetti ponderou que diversas obras entraram no escopo da Copa do Mundo, mas que não eram necessárias, e citou obra para asfaltar o Ribeirão do Lipa.

“Deixei a procuração com um dos diretores e me ausentei por um fim de semana, quando retornei havia o lançamento de seis obras. Conseguimos cancelar cinco, mas o edital para o Ribeirão do Lipa já havia sido lançado. Então fico com pé atrás quando existe muita pressão para se realizar obras que não tem interesse, por exemplo, a obra atrás do Shopping 3 Américas, o que isso tinha haver conosco na Copa”, observou.

O ex-presidente destacou que para atender a Copa do Mundo era necessário apenas o estádio, o aeroporto, a mobilidade urbana com o modal BRT, e o Fan Park.

“Só não via quem não queria que daria no que deu, a quantidade de volume do que entrava com relação às obras, era um Estado paralelo maior que o Mato Grosso”, opinou.

O presidente da CPI, Oscar Bezerra questionou Sachetti se em sua opinião, o ex-deputado José Riva, poderia ser considerado como o responsável pela implantação do VLT.

“Posso falar enquanto cidadão, que acredito que sim, pois ele foi um dos defensores deste modal, em todas as entrevistas que concedeu. Foi até a Espanha para conhecer a fábrica, então, parece que tinha interesse sim em realizar esta mudança. Era o maior defensor do VLT. Infelizmente, perdemos a oportunidade da Copa do Mundo, pois naquele afã devem ter lançado quase 70 obras”, concluiu.

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