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CENSURA LIVRE

Cena 11 reinterpreta “Romeu e Julieta” em espetáculo no Teatro Zulmira Canavarros

“Jamais história alguma houve mais dolorosa / Do que a de Julieta e do seu Romeu”. A poesia triste do príncipe aos amantes da tragédia do amor proibido, que leva à morte reconciliadora para as casas Montecchio e Capuleto, talvez possa traduzir o desafio ao qual se lançaram o dramaturgo Flávio Ferreira e a Companhia de Teatro Cena Onze – na ousada montagem do clássico shakespeariano. A peça será levada ao palco no Teatro do Cerrado Zulmira Canavarros, de amanhã (5) até domingo (8). Todas as noites, às 20h.

Desafio porque a adaptação propõe uma leitura lúdica, aproveitando a maestria do autor entre o cômico e o trágico, dirigida às crianças.

E pelas crianças, o espetáculo “Romeu e Julieta: uma história de amor, risos e tragédia”  tem finalidade nobre de arrecadar alimentos para três lares sociais: “Casa da Criança Cuiabana”, “Nosso Lar” e “Eulália Rodrigues”. A entrada custa R$ 10 ou dois quilos de alimentos não perecíveis. Já a renda, em espécie, será revertida para a compra de gêneros alimentícios.

O ESPETÁCULO – “Quando você monta uma peça teatral, tem que saber para onde vai; no Cena 11 a gente nunca sabe onde vai parar”, confessa Flávio Ferreira, diretor do espetáculo e mestre da Companhia Teatral há quase três décadas.

A proposta original, quando o grupo resolveu montar a obra de William Shakespeare (1564-1616), era a de produzir uma versão regionalizada. “Só que no Cena 11 tudo é discutido, todo mundo dá opinião e aí entrou a ideia do ‘clown’, e de levar a tragédia para o universo infantil”, conta o dramaturgo.

Uma criança lê um livro e a história contada é a do amor impossível do casal cujas famílias se odiavam. Aparecem três fadas. As fadas e a criança narram a peça onde todos os personagens, à exceção dos protagonistas, têm o perfil do palhaço – os movimentos desengonçados do ‘clown’.

“Só Romeu e Julieta são ‘sérios’ na profundidade do amor que sentem um pelo outro. A gente faz aí uma crítica às pessoas que não vivem o amor, que não ligam para sentimentos: esses são os palhaços”, comenta Ferreira.

“Além disso, a gente quer com essa adaptação resgatar o hábito das nossas avós e bisavós, que foi se perdendo no tempo e na modernidade: contar histórias, trazer a criança para este universo mágico de fadas, princesas e cavaleiros”, assinala o professor.

A TRUPE – Em cena, vinte atores – entre profissionais e novatos. Vinicius Scalzitti interpreta Romeu, Mariah Ferreira encarna Julieta. Mariah também assina a criação de maquiagem e pensou os figurinos, com Jane Klitze – que também os confeccionou. A coreografia é de Matheus de Lucca, iluminação de Lourivaldo Fernandes, sonoplastia de Miquéias Martins, produção de Beth Luz. Os cenários foram criados por Carlos Jerônimo – que também concebeu a trilha sonora e o design gráfico -, desenhados por Zeilton Mattos e confeccionados por Frank Silva. Na direção do espetáculo, Flávio Ferreira teve os assistentes Gênessy Almeida e Ronaldo José.

PARCERIAS – Nenhum ator ou técnico vai receber pelo trabalho – todos os cachês foram doados para os abrigos infantis. A concretização do projeto também teve a participação fundamental de parcerias institucionais diversas – a começar pela Assembleia Legislativa que, por meio da Sala da Mulher, cedeu o espaço cultural da Casa para a Companhia Teatral.

A Secretaria de Estado de Cultura, Prefeitura de Cuiabá, Museu Histórico de Mato Grosso, Sistema Fiemt, Livraria Janina, Cuiabamusic,  Stettor, Grupo Avenida e TV Centro América também estão entre os principais apoiadores da iniciativa. Nenhum dos parceiros contribuiu diretamente com recursos – ou prestaram serviços, ou custearam diretamente a montagem.

A COMPANHIA – Há vinte e seis anos “na estrada”, a Companhia de Teatro Cena Onze brotou da paixão infantil que Flávio Ferreira nutre pelo teatro desde cedo. “Quando eu tinha seis anos, fui ver um circo que veio a Cuiabá e fiquei louco, no outro dia já ‘tava’ fazendo teatro na porta de casa e nunca mais parei. Aí, em 1990, tive o apoio do antigo Anglo, hoje Colégio Isaac Newton e comecei a dar aulas lá”. Nascia o Cena 11.

Ao longo desses anos, mais de três mil atores e curiosos já passaram pelas peças – foram mais de quarenta – e oficinas da companhia. Hoje, é uma organização não governamental que, além de manter viva a arte, desenvolve belíssimo trabalho social em oficinas ministradas em 16 bairros da capital mato-grossense e mais longe, na Escola Estadual Indígena Hambe, com crianças xavantes de uma aldeia próxima a Barra do Garças, onde o Cena Onze conseguiu recente doação da Embaixada da Nova Zelândia de US$ 4,6 mil, destinados à aquisição de biblioteca e computadores.

O DIRETOR – Cuiabano, Flávio José Ferreira é, além de dramaturgo, escritor e advogado. Aluno do poeta Silva Freire na Faculdade de Direito, foi influenciado “pessoal e profissionalmente” por ele. “Foi um privilégio”, emociona-se.

Perguntado sobre a “fórmula” para conciliar advocacia e arte, o dramaturgo é enfático:

– São papéis. Ser pai, filho, advogado, amante do teatro, tudo por conta dessa minha mente inconstante, habituada a essa diversidade que me completa. A gente, às vezes, sofre. Mas é impossível viver sem sofrer. A gente aprende muito também…

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