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O peso da retórica

Mesmo que os pós-modernos façam de tudo para jogar no lixo o legado da antiguidade greco-romana, isso ainda não foi conseguido.

Que bom, pois, na semana passada, todos, inclusive os destruidores das elaborações antigas, viram a ministra Cármen Lúcia do Supremo Tribunal Federal (STF) enunciar – à lá retórica dos clássicos – um dos mais importantes discursos dos últimos tempos no “país das delicadezas perdidas”, como já dissera Chico Buarque.

Cármen Lúcia – em sessão do STF que manteve a decisão de Teori Zavascki de prender o senador Delcídio do Amaral, ex-líder do governo Dilma/PT –, ao ler seu voto, lembrando o jingle do PT/Lula nas eleições de 1989, emocionou o país ao dizer:

“Na história recente de nossa pátria, houve um momento em que a maioria de nós brasileiros acreditou no mote de que a esperança tinha vencido o medo. Depois, nos deparamos com a ação penal 470 (mensalão) e descobrimos que o cinismo venceu a esperança. E agora parece se constatar que o escárnio venceu o cinismo. Quero avisar que o crime não vencerá a Justiça. A decepção não pode vencer a vontade de acertar no espaço público. Não se confunde imunidade com impunidade. A Constituição não permite a impunidade a quem quer que seja”.

Na mesma linha de se buscar nas figuras de retóricas a lógica do raciocínio tão bem trabalhada pelos antigos gregos e romanos, o ministro Celso de Mello também fez um incisivo discurso contra a corrupção no Brasil.

Para ele, “a corrupção age como a ferrugem em relação ao ferro: é o agente decompositor das instituições democráticas”.

Mais adiante, a metáfora da “ferrugem” se explicita em seu discurso. Ela seria a incorporação dos “…marginais que se apossaram do aparelho de Estado…”

A ferrugem, para Mello, teria se tornado “…realidade perigosa, que vilipendia, que profana e que desonra o exercício das instituições e deforma e ultraja os padrões éticos. É preciso esmagar e destruir com todo o peso da lei esses agentes criminosos que atentaram contra as leis penais da República e contra os sentimentos de moralidade e de decência…”.

Na contramão desses raciocínios, que nos elevam como seres humanos e nos fazem pensar que um dia poderemos ter um país melhor, vem a resposta debochada do senador preso: agira por “questões humanitárias”; o senador estaria consternado pela dor da família de um amigo preso na operação Lava Jato.

Essa resposta, que continua a sustentar a mesma forma de agir dos “marginais que se apossaram do aparelho de Estado…”, parece confirmar que o senador estava mesmo desligado do mundo: sem internet, sem TV, sem comunicação alguma. Se estivesse conectado, teria sabido dos discursos acima citados.

Teria sabido que Cármen Lúcia já tinha alertado que o cinismo, o escárnio e o crime não venceriam; talvez o senador tivesse sido mais cuidadoso para não se apresentar como debochado.

Mas já que dei a importância à estruturação mental para a construção da retórica dos dois ministros citados, que se ancoraram em conhecimentos da antiguidade clássica, recordo que li, na Folha de São Paulo, de 22/11/2015, que o MEC proporá mudança no ensino médio de História: estudantes deixarão de ver a história antiga europeia, incluindo Grécia e Roma.

Lamentável. Somos também descendentes da Europa. Assim, é preciso que encontremos formas equilibradas de estudar as contribuições de todos os povos dos quais descendemos.

Esse tipo de subtração nos currículos escolares também é artimanha dos “marginais que se apossaram do aparelho de Estado…”.

Fiquemos atentos.

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ é doutor em Jornalismo pela USP e professor de Literatura da UFMT.

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