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VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Médica agredida por empresário diz que ato do marido ‘foi covardia’

“É difícil falar, lembrar daquele dia horrível. No momento em que tudo aconteceu, eu tinha plena consciência de que o correto seria  ir atrás, denunciar. Passado esse momento, me veio um sentimento tão grande de vergonha. Apesar de ser vítima, a conduta da mulher é avaliada diariamente e, muitas vezes,  as pessoas  ainda questionam: mas o que ela fez? Como se houvesse uma justificativa. Um ato de covardia”.

O desabafo é da médica Camila Tagliari, de 29 anos, que resolveu quebrar o silêncio sobre o drama pessoal que vive, há pouco mais de um mês, desde que foi agredida pelo então marido, o empresário Marcos César Martins Campos.

Ela falou ao Olhar Direto sobre o que aconteceu no último dia 27 de março, data em que foi inserida como mais uma das vítimas de violência doméstica em Cuiabá.

Os sonhos construídos ao longo de oito anos de relacionamento, entre namoro e casamento, foram encerrados com murros, socos, pontapés após um jantar de comemoração pelos 34 anos do empresário Marcos César Martins Campos.

O “palco” do ato foi à garagem de um prédio de luxo no bairro Duque de Caixas, em Cuiabá. Uma menina de onze anos, enteada do agressor,  testemunhou às cenas.

Por descumprir medidas judiciais de manter distância de mãe e filha, Marcos teve a prisão preventiva decretada pelo juiz Jamilson Haddad Campos, da 1ª Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher.

Além das dores físicas – pela fratura nasal que sofreu e rompimento da membrana timpânica direita –  Camila ainda é obrigada conviver com o terror psicológico por não conseguir defender a filha.

“Ele me arrancou do carro pelo cabelo. Bateu meu rosto contra a lataria várias vezes. Ele ainda me socou na parede. Na sequência, me deu um tapa e eu cai no chão. Quando eu acordei  a minha filha estava com ele. Pedia que ele parasse, que ele iria me matar. Imagina o que é ver uma criança sofrendo ao vivenciar uma coisa dessas? Foram oito anos de relacionamento. Uma pessoa que ajudava a cuidar, que a levava na escola. O que toda mãe quer é ver seu filho bem. Jamais algo assim”, disse.

Para ela, a presença da menina ‘serviu’ para coibir atos ainda mais violentos. Traumatizada, a menina tenta manter sua rotina, com atividades escolares e convívio com amigos, mas características antes despercebidas, afloraram.

“Ela era uma verdadeira mocinha. Segura de si. Às 22 horas se despedia e ia dormir porque sabia que tinha aula no dia seguinte. Sempre demostrou segurança.  Hoje é apreensiva. Dorme, mas fala demais durante o sono.  Sofre com pesadelos e só vai para cama depois que eu vou.  E agora ela só dorme comigo também.”

O ataque começou depois que ela questionou Marcos se ele havia combinado uma festa de aniversário no apartamento do casal após a saída do restaurante.

“Eu vi que ele entrou na garagem de maneira feroz. Percebi que algo estava errado. Eu ainda disse que ele poderia subir e que iria esperar. Sabe aquele lance de esperar um pouco, contar até dez para não brigar? Então, quando eu vi já estava sendo arrastada pelos cabelos”.

Durante a entrevista, Camila não teceu críticas à avaliação técnica feito pelo Judiciário, que colocou em liberdade o empresário horas depois da prisão em flagrante, após ser submetido a audiência de custódia. Ele recebeu  uma tornozeleira eletrônica e a total proibição de manter contato com a ex e a filha dela.

Botão do pânico

No entanto, apesar da ordem judicial, Camila contou que dias após o episódio o botão do pânico que passou a usar como medida de proteção ao ex-marido foi acionado, apontando que o empresário teria desrespeito o limite estabelecido pelo juiz Marcos Faleiros, da 11ª Vara Criminal, uma das condicionantes para  que respondesse o processo em liberdade.

Inicialmente, o perímetro delimitado foi de um quilômetro, mas a defesa recorreu da medida e a Justiça acatou pedido reduzindo o espaço.

Camila contou que o sentimento que lhe permeia é de angústia.  “Logo depois daquele dia,  o bip começou  a apitar, mas achei que Cuiabá é pequena, que  era pela proximidade do escritório, do apartamento, do consultório onde eu faço tratamento, mas nos últimos dois dias,  foram várias vezes”.

Com medo, a médica procurou à Delegacia Especializada na Defesa da Mulher para registrar um boletim de ocorrência relatando os episódios na data de hoje, 28 de abril. O caso também foi denunciado ao Ministério Público Estadual (MPE) e  promotora Lindinalva Rodrigues requisitou a ordem de prisão.

“No primeiro momento, eu tomei essa decisão de ir atrás da polícia. No segundo, vem uma tristeza e é quando você tenta melhorar psicologicamente. Querendo ou não, é uma quebra de sonhos. Algo que você nunca imagina que vá acontecer. Tudo vai por água abaixo em alguns segundos. E, neste último final de semana, por mais distante que eu tente ficar, por mais que eu tente me resguardar, fui informada de relatos das nossas particularidades de casal, e sobre citações de que ele não se mostra arrependido, e ainda está me difamando. O que fica é a sensação de vulnerabilidade”, diz.

Ciente de que a exposição do caso ajudou mulheres a procurar à polícia, a não temer  relatar  abusos, a médica declarou que em nenhuma circunstâncias chegou a ponderar a mais remota chance de reatar o relacionamento.

“Muita gente me questiona sobre isso.  Hoje sou capaz de avaliar que deveria esta mais atenta aos primeiros sinais, o puxão de cabelo, ser jogada no sofá… mas ninguém quer encerrar uma relação por um puxão de cabelo. Hoje eu sei que deveria ser diferente”.

Nos últimos trinta dias, Camila chegou a cogitar deixar Mato Grosso, mas desistiu da ideia. “Não seria justo que eu fosse penalizada por duas vezes, deixar minha vida, a minha clientela”.

Ordem 

A Secretaria de Justiça e Direitos Humanos de Mato Grosso informou que até o fim da tarde de hoje, 28, a ordem de prisão não havia sido cumprida e o nome do empresário não consta na listagem de presos de Mato Grosso.

O advogado do empresário, Rodrigo Leite da Costa, foi procurado pelo Olhar Direto e questionando quanto ao descumprimento das medidas restritivas que ensejaram o decreto de prisão.

Rodrigo afirmou ainda que estava em viagem e sem acesso a decisão, e asseverou que na sexta-feira, 29,  ao retornar para Cuiabá, iria se inteirar da medida para manifestar-se.

Foto: Olhar Direto

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