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MORRE UM MITO

Da Caubymania a ícone gay, cantor atravessou 60 anos de música brasileira

Quando Cauby Peixoto surgiu na música brasileira, seis décadas atrás, era fácil identificar um bom cantor: vozeirão daqueles de chegar na última fileira da plateia sem microfone, interpretação intensa, repertório altamente variado.

Com seu timbre de barítono, gosto pelo derramado e a sensibilidade jazzística herdada de sua família musical, de saída Cauby era o pacote completo, mas ainda tinha mais.

Nos anos 1950 –do cinema norte-americano, do jazz moderno, das boates de Copacabana, da cultura urbana contemporânea–, Cauby era uma figura pop. Seus discos eram hits, ele aparecia cantando em filmes, viajava aos Estados Unidos para conhecer colegas artistas internacionais, era capa de revistas, choviam mensalmente milhares de cartas de fãs, boatos corriam de seus romances com outras estrelas, centenas de jovens garotas apareciam em seus shows e transmissões de rádio, o seguiam na rua, desmaiavam em sua presença, gritavam seu nome, arrancavam suas roupas.

Se algumas daquelas roupas eram feitas com costura superficial para se desmontarem com facilidade em frente às câmeras fotográficas, e se algumas daquelas garotas eram contratadas para desmaiar, bem, digamos que era apenas um empurrãozinho e chamemos de publicidade. Era a Caubymania.

Uma novidade no Brasil, mas uma tática que já havia funcionado dez anos antes, na América do Norte, com Frank Sinatra assessorado por seu relações públicas George Evans, e funcionaria muito bem novamente dez anos depois na Inglaterra, com os Beatles guiados por seu empresário Brian Epstein.

Não era apenas carisma, empatia com o público ou o sorriso ideal. Ao lado do empresário Di Veras (que entre idas e vindas acompanhou o cantor por 50 anos), Cauby foi um dos primeiros artistas brasileiros a entender a máquina do marketing e demonstrar savoir faire em publicidade e promoção.

Numa era pré-televisão, em que fama era aparecer em magazines como Radiolândia e Revista do Rádio, Cauby cantava em eminentes emissoras como Tupi, Nacional e Mayrink-Veiga, e reinava como o grande cantor masculino em plena era de Rainhas do Rádio como Angela Maria,Dalva de Oliveira, Marlene, Emilinha Borba.

Nascido em Niterói, a relação de Cauby com a música vinha de berço. Sua família, altamente musical, incluía seu tio pianista Nonô (da turma de Noel Rosa), seu primo sambista Ciro Monteiro e seus irmãos Moacyr, pianista, e Arakén, trompetista.

Ainda adolescente, cruzando a inspiração em ídolos como Orlando Silva e Silvio Caldas com a influência jazz familiar, começou a cantar como crooner na noite paulistana, ao lado do irmão Moacyr, época em que se escondia atrás de pilastras ou cortinas para se apresentar sem ser visto pelo juizado de menores.

Depois dos primeiros discos de sucesso moderado, como “Blue Gardenia” e “Molambo”, em 1956 gravou num 78 rotações seu grande hit, sucesso nacional para sempre associado a Cauby:”Conceição”.

Foi o auge.

Nesse mesmo período, chegou a viajar algumas vezes aos EUA e gravar com o pseudônimo de Ron Coby (depois seria também chamado de Coby Dijon), além de ser assunto em revistas como “Time” e “Life”, e conhecer figuras como Nat King Cole, Bing Crosby e Elvis Presley.

Em 1957, o fenômeno da música de Elvis Presley e Bill Haley chegava ao Brasil. Cauby, que não se vexava de gravar o que pintasse, também enveredou pelo estilo, se tornando um dos primeiros cantores de rock no Brasil. No filme “Minha Sogra é da Polícia”, ainda fazia uma cena cantando acompanhado pela novata banda The Snakes, dos jovens Erasmo Carlos (tocando saxofone) e Roberto Carlos (tocando guitarra).

Entre rocks, sambas, canções, foxtrotes, temas de Carnaval, músicas italianas –e com a chegada da Bossa Nova, em 1958–, não demorou para Cauby ser considerado “brega”. Pelos anos 1960, período em que se tornou dono da famosa boate Drink, no Rio de Janeiro, seguiu cantando principalmente na noite. Nos anos 1970 ensaiou algumas voltas a disco, mas o ar cult veio mesmo ao gravar um dueto com Elis Regina em 1979 (na música “Bolero de Satã”) e com o álbum “Cauby! Cauby!”, de 1980.

O acertado repertório trazia pérolas como a faixa-título, presente de Caetano Veloso, “Dona Culpa”, de Jorge Ben, e Cauby encarnando “Bastidores”, de Chico Buarque, que a partir de então para sempre seria sua música-tema, ao lado de “Conceição”: “com muitos brilhos me vesti / depois me pintei, me pintei, me pintei, me pintei”.

Em meio século, muita coisa mudou. Entre bossas novas, jovem-guardas e tropicálias, vieram renovações e inversões estéticas e paradigmas se reinventaram.

Cauby atravessou estilos: sua fase inicial, perfeita fotografia congelada do momento nacional pré-bossa nova; seu ultrarromantismo dos 1950, precursor do brega 20 anos depois; seu período nos anos 1970 e 1980, referência de retomada de fôlego entre artistas brasileiros.

Entre tantas décadas, Cauby sobreviveu com sua arte através da força do personagem de si mesmo.

Ano após ano, nunca foi abandonado na história. Além de cantor perfeito e do brilho próprio dos altamente carismáticos, exercia uma arte esquecida: era um personagem.

Com sua elegância extravagante e andrógina, seu ar de dândi com peruca cacheada e figurino de cores, brilhos e paetê, Cauby tornou-se um ícone –de uma época, de longevidade artística, de grande voz, de glamour à moda antiga, de elegância, de auto-expressão.

Muitas vezes lhe perguntaram, mas Cauby nunca se disse gay. Sempre contou histórias de envolvimento com diversas mulheres, mas também chegou a dizer durante show em uma boate gay: “somos uma gente muito especial”. Sex symbol para muitas mulheres, ícone para muitos gays, um deslumbre para muitos fashionistas. Mais do que homem ou mulher, normativo ou simpatizante. Cauby sempre foi uma estrela.

Foto: Divulgação

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