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Mordomias do Castigo

Fiquei sabendo pela imprensa que tanto o senhor Eduardo Cunha, bandido afastado do cargo e função na Câmara pelo Supremo Tribunal Federal, e a senhora Dilma Rousseff, suspeita de crimes de responsabilidades afastada pelo Senado da Presidência da República, terão direito a carro, escolta, segurança, avião, assessores, enfim, a tudo que tinham antes de serem declaradas inidôneas para as funções que exerciam, além de continuarem a ocupar as residências faraônicas que as autoridades constroem para si, mesmo não fazendo mais jus, mesmo porque estão impedidos de exercer seus mandatos.

Pessoas comuns, como muitos iguais a mim, que têm uma profissão ou um negócio, que se esforça por sua sobrevivência, que sabe distinguir o certo do errado, não consegue entender como é possível que uma pessoa que cometeu maldades, possa continuar cometendo e todos nós pagando por suas mordomias. De onde sai o dinheiro para essas benesses? Dos impostos extorsivos que não param de extrair de todos nós, uma população usurpada pelos políticos e governantes. Interessante notar como os políticos legislaram em causa própria, garantindo até mesmo aos afastados, mais direitos e benesses que qualquer outro mortal nacional.

Se quiserem saber minha opinião, o que é muito caro e custoso nesse país é a política, que cria privilégios e desigualdades de tratamento pelos entes públicos. A política tem sido invariavelmente algo realizado clandestinamente, onde brigas mesquinhas de interesses particulares traçam o destino de todos. Dizem que o Estado brasileiro é caro, repleto de verbas já destinadas por lei (medida sábia para evitar que o governante do momento jogue toda verba estatal em seus desatinos) para educação, saúde, segurança, e que isso que impede o equilíbrio das contas. Ledo engano, o que é caro nesse país são os governantes e a política de uma forma geral. Dinheiro mal gasto, mal gerido e repleto de gastos onerosos e cujo único benefício é o próprio governante ou político.

Da verba com publicidade aos gastos com inauguração, do custo exagerado com a segurança própria, enquanto dividimos uma insegurança generalizada, aos deslocamentos pelo país, mais para aparecer do que para resolver qualquer dos problemas da maior parte de nós, exceto se fizermos parte da rede íntima de algum político ou governante, tudo é marca de insensibilidade, de desrespeito, de custos e valores que deveriam estar dedicados à educação, à saúde ou à segurança, mas que cuida mais da saúde e da segurança dos políticos e governantes, já que com a educação eles pouco se importam.

A política é algo muito importante para deixar na mão dos “políticos” e seus partidos, a se demonstrarem cada vez mais uma quadrilha, que uma agremiação de ideais políticos; esses a transformam num balcão de negócio, num jogo de publicidade para o público e de interesses escusos e clandestinos na intimidade, e como tudo que tem um preço, não tem dignidade. O fato é que a política, infelizmente, tem se tornado algo que se tem mais asco do que interesse, que se quer distância para se manter honesto, que até podem atribuir algum poder, mas que não depositam respeito. Para a população a política é um ônus caro que carrega porque lhe parece inevitável, não porque espera dos políticos e governantes soluções, mesmo porque governantes e políticos são antes o nosso problema mais do que qualquer possibilidade de solução razoável.

Dos políticos pode-se esperar de tudo, mas nada é certo, principalmente sua palavra. Só não se deve esperar grandeza, a busca do interesse comum ou mesmo honestidade; cada um está lá para transformar seu interesse particular no interesse comum, ou criar privilégios aos setores que representa. Para a política melhorar é preciso melhorar as pessoas, a população amadurecer, deixar de ser vítima passiva de ações, ou mera reação, geralmente de forma explosiva e nefasta, para ser agente dos interesses próprios e criar, com o debate com os demais interesses, o interesse comum.

Roberto de Barros Freire é professor na UFMT

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