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ELEIÇÃO 2016

Medo de morrer faz pré-candidato a prefeito do PSDB abandonar eleição

Interessado em retomar o poder em Magé, cidade da Baixada Fluminense, após 12 anos, o diretório do PSDB no Rio planejava até pouco tempo encontrar uma opção viável para concorrer à prefeitura.

A missão cabia ao presidente tucano no Estado, o deputado federal Otávio Leite, que disse ao UOL ter achado, há alguns meses, o “candidato perfeito”.

Tratava-se de um homem descrito como “família” e “muito religioso”. Leite não esperava, porém, que o correligionário desistisse de encabeçar a chapa tucana por uma razão estranha ao ambiente democrático: o medo de morrer. O escolhido não quis sequer ser identificado pela reportagem.

O temor do pré-candidato, por outro lado, é coerente. Desde 1997, ao menos 14 pessoas ligadas à política municipal foram assassinadas.

Desde novembro do ano passado, em toda a região da Baixada Fluminense, houve 13 homicídios contra vítimas que ocupavam cargos eletivos ou que pretendiam ingressar na vida pública –dois deles em Magé.

O caso que alarmou o tucano desistente, afirma Leite, foi o do vereador Geraldo Gerpe (PSB), 41, morto a tiros dentro do estacionamento da Câmara Municipal.

Em meados de julho, a pré-candidata a vereadora Agá Lopes Pinheiro (DEM) foi assassinada quando estava com o marido em um bar no bairro da Barbuda. Os inquéritos estão a cargo da DHBF (Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense).

Após o assassinato de Gerpe, o então pré-candidato tucano começou a ser pressionado pela família para que abandonasse o projeto político. E o fez sem pensar duas vezes.

“A pessoa me procurou e disse que, pela pressão em casa, não estava mais disposto a concorrer. Afirmou que lamentava muito, mas que o ambiente político da região representava uma insegurança para ele e para família. Um risco que ele não queria correr e ponto final”, explica o presidente do PSDB fluminense.

A pedido da reportagem, Leite tentou contato com o antes pré-candidato a prefeito de Magé, para que ele fosse entrevistado. O convite foi rejeitado e o político respondeu que não se sentia seguro para falar com a imprensa. “A política não era para ser assim”, desabafa Leite.

[O pré-candidato] apresentava boas perspectivas. A gente conseguiria compor uma alternativa interessante, uma novidade em relação à clássica realidade de beligerância que existe há muito tempo em Magé, onde existe um nível agudo de radicalização política.

Otávio Leite, deputado federal e presidente do PSDB no Rio

No município, de acordo com o líder tucano, “qualquer candidato precisa andar com seguranças” porque são comuns as tentativas de homicídio. Em geral, o método é simples: as vítimas são abordadas por criminosos em carros ou motocicletas e mortas a tiros. O histórico de violência contra ocupantes ou pleiteantes de cargos públicos na região indica que todos os casos ocorreram praticamente dessa forma.

“Mesmo sabendo que a barra é mesmo pesada em alguns lugares, acho que chegamos ao fundo do poço. (…) Nossos candidatos em Magé sempre comentam esse clima violento. Alguns disseram que evitam andar na rua à noite, relatam problemas com milícias e coisas do tipo”, disse Leite.

Na visão do deputado, Magé “está um pouco mais à parte” das atenções eleitorais, o que facilitaria a prática de crimes de motivação política e impulsionaria a sensação de impunidade. “Em outros lugares, as campanhas têm mais televisão. Magé é uma cidade mais escondida. Isso me assusta um pouco”, declarou. “Você pega o histórico do município e vê que há lutas fratricidas de grupos lá. E observa que a resolução desses casos tem sido muito precária.”

CPI aponta impunidade

Em 2000, uma CPI foi criada na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) para investigar e debater a ocorrência de crimes violentos contra políticos na região metropolitana do Estado. No relatório final, duas das sete conclusões apontadas pela comissão foram a “cumplicidade de agentes do poder público” e “a impunidade como principal elemento propulsor da violência política”.

Reprodução

Trecho do relatório da CPI da violência política, realizada na Alerj em 2000

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