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Crime contra a ferrovia

Mais um crime contra a ferrovia e o Brasil. Desta vez, é no Nordeste. Trata-se da Transnordestina, ferrovia idealizada para ligar três Estados – Piauí, Pernambuco e Ceará – aos principais portos da região: Suape (PE) e Pecém (CE).

A reportagem do Fantástico (TV Globo) mostrou, esta semana, o que nós não gostaríamos de ver. Mais uma obra com indícios de corrupção, superfaturamento, que se arrasta há mais de 10 anos. Foram gastos mais de R$ 6 bilhões e só a metade foi concluída.

A Transnordestina Logística recebe investimentos privados da Companhia Siderúrgica Nacional, a CSN, e dinheiro público da VALEC (uma empresa federal ligada ao Ministério dos Transportes).

Segundo os técnicos do Tribunal de Contas da União, a pergunta intrigante que motivou o órgão a abrir investigações e proibir o Governo Federal de liberar mais dinheiro para a concessionária é a seguinte: Por que uma obra que consome tanto dinheiro público se arrasta por tanto tempo?

E o pior é que ninguém foi demitido e punido exemplarmente. O que se viu no documentário foram entrevistas de cada parte, onde cada um procurou se justificar – o injustificável – apresentando argumentos esdrúxulos. Para esses burocratas, quanto mais tempo demorar a construção melhor para eles e pior para o país.

O Governo Federal tem que agir rápido para que não aumente ainda mais o prejuízo ao erário. E colocar pessoas dispostas a cumprir na risca um cronograma pré-estabelecido. Ou a ferrovia não é prioridade no Brasil?

O crime contra a ferrovia e o Brasil não está somente no desvio do dinheiro público. Está na corrupção de prioridades. O país prefere priorizar um modelo de desenvolvimento econômico implantado dede 1964, baseado na tese “Bob Fields”, onde quanto mais asfalto, petróleo, dependência externa, melhor.

O Brasil precisa valorizar a indústria ferroviária nacional, como por exemplo, a indústria de dormentes de aço, cuja vida útil chega a 50 anos, sendo que o material ainda pode ser reciclado. E não simplesmente, fazer o feijão com arroz, preferindo investir somente em rodovias que provocam um trânsito cada vez mais violento e assassino, além de aumentar o custo-Brasil. São quase 50 mil mortes todos os anos no trânsito, estradas e ruas. Mais que todas as guerras do Oriente Médio.

Falta ao Brasil uma visão estratégica. Falta também a cultura de se fazer as coisas no prazo. Juntamos essas duas faltas graves e o resultado é explosivo. Voltaremos a ser o país do futuro. Aquele que não é, jamais será, mas que pensa que o no futuro tudo será diferente. Um país escapista, que não enfrenta seus problemas e empurra tudo com a barriga.

A logística é uma questão estratégica. Que pesa enormemente no custo país, em nossa capacidade de produzir e escoar a produção a preços competitivos. Sem uma rede de escoamento adequada, não conseguiremos desenvolver as regiões com harmonia, vamos ficar sempre dependentes de uma modelo concentrador, com duas ou três regiões dominando o investimento produtivo nacional.

Contudo, tem mais. Quase 90% de nossa população vive em cidades, temos por volta de 15 metrópoles que são polos de grandes redes de centros urbanos. As grandes metrópoles e mesmo as médias, se fossem cobertas por uma eficiente rede de ferrovias e sistemas mistos de transporte de passageiros, garantiriam o direito humano de ir e vir, reduziriam drasticamente os acidentes e os custos sociais de deslocamento de pessoas.

Enfim, para o Brasil, na maioria das vezes, a escolha por ferrovias é o melhor caminho. Tapamos nossos olhos e não nos deixamos ver isso. Por isso, estamos andando para trás. Está na hora de mudar isso!

Vicente Vuolo é economista, cientista político e analista legislativo do Senado Federal.

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