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PESADELO EM COLETIVOS

Usuários convivem com calor, lotação máxima e trânsito caótico

Luiz Alves

O barulho de motores e buzinas dos veículos compõe a trilha sonora dos cuiabanos que pegam ônibus às 18h em uma das principais avenidas da Capital, a Lava Pés, no bairro Duque de Caxias.

Com ares cansados, sem ter onde sentar, enfrentando o calor intenso, os usuários de ônibus vivem mais um dia comum enquanto aguardam o transporte público para, finalmente, chagarem em casa.

Engana-se quem pensa que essa é a parte mais fácil. Com condições precárias, serviço ruim e trânsito engarrafado, andar de ônibus em Cuiabá se torna um pesadelo.

A reportagem seguiu viagem do ponto em frente ao 44º Batalhão de Infantaria Motorizado, na Lava Pés, até o instalado em frente ao Banco do Brasil, na Avenida Fernando Corrêa.

Ao chegar ao ponto de ônibus em frente ao batalhão, cerca de 30 pessoas se amontoam na calçada. O pequeno banco não é suficiente para que todos se sentem. Alguns usuários até se encostam em árvores e nos pilares do ponto.

Sem iluminação adequada, a parada fica na escuridão depois das 18h e a sensação de perigo é constante. Muitos nem ousam tirar o celular da bolsa.

O primeiro ônibus segue até o Centro de Cuiabá. Já com a lotação chegando ao máximo, os usuários correm para tentar entrar no veículo. Uma fila de alguns metros se forma e o motorista aproveita para relaxar um pouco atrás do volante.

Após passar pela catraca, os novos passageiros se espremem entre os que já estavam dentro para conseguirem alcançar um pedaço da barra de apoio. A imagem de exaustão dos passageiros é melancólica.

O veículo fecha a porta e segue viagem em direção à Avenida Isaac Póvoas. Poucos descem, mas muitos sobem a cada parada.

O ônibus ainda para muitos metros antes do último ponto e distante da calçada. Alguns chegam a reclamar em voz alta: “Não tinha como parar mais longe, não?”.

Estão todos muito lotados e eu estou esperando outro. Eu já sou de idade, não aguento

Os usuários seguem até o outro ponto para iniciar a segunda etapa da jornada: pegar o próximo ônibus para a região do Coxipó, que demora mais 10 minutos para chegar.

Se o primeiro já estava lotado, a linha 605 consegue desafiar as leis da física. Uma senhora de 72 anos, com cabelos já brancos, lamenta.

“Estão todos muito lotados e eu estou esperando outro. Eu já sou de idade, não aguento”.

O veículo para em cima de uma poça de água suja e abre as portas. Os passageiros precisam se contorcer para subir as escadas sem cair na sujeira.

Leva alguns minutos até todos embarcarem. Mais uma vez, o calor humano em excesso fazem os passageiros transpirarem. Os 25ºC que fazia às 18h30 daquele dia se transformam em 35ºC dentro do 605 sem ar condicionado.

Uma vendedora de cosméticos, que faz o trajeto até a Avenida Fernando Correa todos os dias, se revolta com as péssimas condições. Ela se sente desrespeitada com a forma como é o transporte público de Cuiabá.

“É sempre lotado e demora muito. Parece que o motorista só quer saber de encher o ônibus e ainda dirige como se carregasse boi. E toda vez ainda aumentam a passagem. É um abuso isso que fazem com o cidadão”, desabafa.

Dentro do ônibus, o barulho das ferragens é estrondoso. Mal se consegue conversar e a impressão é de que o veículo vai se desmontar ali mesmo.

Trânsito e demora

O congestionamento de veículos reforça o caos na ida para casa, mesmo com as faixas exclusivas para ônibus.

O engarrafamento no final da Avenida Isaac Póvoas faz com que o trajeto seja ainda mais demorado. As pessoas começam a ficar impacientes com o veículo totalmente parado.

Porém, neste trajeto, o pior momento é passar pelo viaduto da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), na Avenida Fernando Correa. Filas gigantes se foram nas três pistas em direção ao Coxipó.

As vias embaixo do viaduto também ficam paradas. Carros, motos, ônibus, passam a buzinar como se fosse fazer com que os semáforos abrissem mais rápido para o trânsito fluir.

“Os ônibus são horríveis, não tem ar condicionado, é muito calor. A gente está cansada, saindo do trabalho, só quer ir para casa e ainda tem que passar por isso”, reclama a vendedora.

Já são 18h57 quando o veículo para em frente ao Banco do Brasil, ainda na Fernando Correa. Para sair é outra luta. Com a grande quantidade de passageiros, fica quase impossível chegar à porta traseira.

Em questão de segundos, o motorista fecha a porta atrás do último passageiro que conseguiu desembarcar. Ele desengata o ônibus e continua a viagem até o ponto final.

Outro lado

Por meio de nota, a Secretaria de Mobilidade Urbana (Semob) revelou que está preparando uma licitação para o transporte público que deve ser lançado no dia 18 deste mês.

O edital passa por readequações para atender apontamentos técnicos feitos pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE).

O processo prevê a inclusão de veículos mais novos e equipados com ar-condicionado e câmeras de segurança.

Em relação à superlotação, a Semob afirma que o fenômeno é comum em todas as cidades em horário de pico. A Pasta disse que Cuiabá possui 390 ônibus rodando.

A Prefeitura também relatou que são realizadas vistorias periodicamente para avaliar as condições da frota.

Saga para pegar um ônibus às 18h se transforma em pesadelo para os cuiabanos

“Em caso de descumprimento das normas por parte das empresas, as mesmas são notificadas e os veículos substituídos”, diz trecho da nota.

Ainda conforme a Secretaria, agentes da Diretoria de Transporte fiscalizam os horários de chegada e partida dos ônibus da Capital. Porém, a Semob pede que os usuários levem em consideração os engarrafamentos, acidentes e outros imprevistos de trânsito.

Para a Prefeitura, as faixas exclusivas de ônibus reduziram o tempo de viagem dos usuários do transporte coletivo em até 30%. A Semob garante que trabalha para inibir a ação de motoristas infratores, que eventualmente invadam o espaço reservado aos ônibus.

A nota ainda diz que o preço da passagem é estabelecido pela Agência Municipal de Regulação dos Serviços Públicos Delegados de Cuiabá. O valor leva em consideração preço de insumos e revisão inflacionária.

No caso da falta de iluminação adequada, a Semob transfere a responsabilidade para a Secretaria de Serviços Urbanos nas regiões que possuem eletricidade. Nos locais onde não há energia, a Pasta afirma que é necessário entrar em contato com a concessionária responsável.

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