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'PELO CRIMA"

Como lutar pelo meio ambiente sem sair de casa

AFP

WASHINGTON, DC - OCTOBER 18: Actress Jane Fonda is arrested for blocking a street in front of the U.S. Capitol during a Fire Drill Fridays climate change protest and rally on Capitol Hill, October 18, 2019 in Washington, DC. Protesters are demanding urgent action on adapting the Green New Deal, clean, renewable energy, and an end to all new fossil fuel exploration and drilling. Mark Wilson/Getty Images/AFP == FOR NEWSPAPERS, INTERNET, TELCOS & TELEVISION USE ONLY ==

“Assisto a imagens de protestos “pelo clima” ao redor do mundo. Num dos mais criativos deles, pessoas enfiam a cabeça na areia de uma praia e ficam nessa posição até o fôlego acabar ou alguém fazer algo pelo clima, o que acontecer primeiro. Noutro, a política aparece acompanhando um gigantesco polvo rosa. Em Nova York, ativistas de um grupo chamado Extinction Rebellion jogaram sangue falso na estátua do Charging Bull, no centro financeiro da cidade e do planeta. Por fim, teve um pessoal que achou que a melhor forma de lutar contra o que eles acreditam ser a extinção da vida na Terra com dancinhas, caras-e-bocas e roupas compradas numa liquidação circense.

Teve ainda casamento lésbico durante os protestos. E, claro, houve aqueles que simplesmente marcharam pelas ruas de Londres, Nova York e Seattle levando cartazes com dizeres como “não bebemos petróleo”, “chega de combustíveis fósseis” e “justiça climática agora”. Até a veteraníssima atriz Jane Fonda, de 81 anos, acabou presa numa dessas manifestações, recuperando para si uma importância que há muito tinha perdido.

Diante de tudo isso, reviro os olhos, num gesto que parece de enfado, mas que na verdade é puro desespero. Me pergunto como é possível que (i) essas pessoas não questionem a motivação por trás desses grupos organizados e (ii) como elas podem acreditar que uma dancinha qualquer vai resolver o problema que elas consideram tão urgente? Sem resposta, rio, mas sou repreendido. “É melhor fazer isso do que não fazer nada”, argumenta alguém.

Discordo. Muitas vezes é melhor não fazer nada, isto é, não ceder à tentação das decisões grandiosas, dos gestos violentos, das palavras embriagadas de certeza. Neste texto, recomendo cinco inações para quem não gosta de gritar ou brigar e quer ter uma vida ambientalmente ética.

Não lute
Luta pressupõe confronto, que por sua vez pressupõe a imposição de uma ideia sobre as demais. Nada mais autoritário, portanto, do que sair por aí exigindo isso ou aquilo aos gritos e pontapés. A “luta” pela preservação do meio ambiente ou para se evitar uma extinção em massa ou para qualquer outra causa abstrata do gênero nada mais é do que uma tentativa de esmagar o oponente e, por mais que se use no atacado o discurso da tolerância e dos debates de ideias, sejamos francos: nenhum guerreiro é caridoso na hora de destruir aquele que vê como inimigo.

A luta, a guerra e o conflito geralmente são defendidos por pessoas que veem uma urgência demasiada em suas demandas. Não sei, talvez isso seja reflexo de uma geração que tem tudo muito fácil, tudo muito à mão, tudo pra ontem. Uma geração que acredita em direitos outros que não os naturais. Mas a maior virtude daqueles que se propõem a resolver o problema das mudanças climáticas é mesmo a parcimônia e a paciência.

Questione
Se há mesmo um problema, ele será resolvido com paciência, trabalho e racionalidade. A questão (a primeira de muitas) é: há mesmo um problema? Fala-se muito que o aquecimento global, também chamado de mudanças climáticas e até de crise climática, é um consenso entre os cientistas. É comum ouvir que 99% dos cientistas concordam. Mas será que eles concordam mesmo? E por que o 1% dos cientistas deve ser ignorado? Se há interesses escusos por trás deste 1% que recebem o rótulo de negacionistas, por que não haveria interesses igualmente escusos por trás dos “afirmacionistas”?

Em se tratando de um problema que desperta tantas paixões, os pontos de interrogação são e devem ser infinitos. Até porque as motivações humanas para se engajar em qualquer movimento revolucionário, por mais “altruísta” que ele seja, são muitas, nem todas exatamente nobres. Vaidade, por exemplo. Necessidade de se sentir pertencente a um grupo. Complexo de herói. Medo irracional. E, claro, a boa e velha e nunca desprezível ignorância pura e simples.

Mas não direcione as perguntas somente para o mundo externo. Afinal, o que o motiva a defender este ou aquele lado? Será que você não está negando o caráter antropogênico das mudanças climáticas só para ser “do contra”? Será que você está pedindo o fim dos combustíveis fósseis só para parecer virtuoso em sua comunidade?

Leia
Por algum motivo que me escapa, recomendar às pessoas que elas leiam virou um insulto hoje em dia. “Como você ousa?!”, costumam reagir os aconselhados, bem ao estilo Greta Thunberg. Definitivamente, a busca pelo conhecimento nos livros está em baixa hoje em dia – mas duvido que isso tenha a ver com o uso das árvores na fabricação de papel.

Mas, sinto muito, se você quer ter uma posição minimamente embasada sobre a crise ou não-crise climática, vai ter que recorrer aos livros e periódicos especializados. Fontes secundárias, como textos jornalísticos e documentários, também servem, claro, mas desde que você já esteja comprometido em questionar sempre – processo que inevitavelmente o levará às fontes primárias.

A menina Greta, por exemplo, disse em seu discurso raivoso na ONU que estamos no início de um período de extinção em massa. Será que ela leu A Sexta Extinção: uma história não natural, de Elizabeth Kolbert? Será que os que juram de pés juntos que as mudanças climáticas são causadas pelo homem já leram The Sun’s Heartbeat [As batidas cardíacas do Sol], de Bob Berman?

Não estou querendo dizer que esses livros, entre muitos outros, são conclusivos. Não são. Aliás, fique longe de livros conclusivos, construídos para se defender uma tese política. Quando o assunto é a crise ou a não crise climática, os melhores livros são aqueles que fazem com que nos sintamos ignorantes.

Seja otimista
A situação do homem hoje em dia não é pior do que há 70 mil anos, quando uma série de coincidências climáticas provavelmente causadas pela erupção de um supervulcão quase levou a espécie à extinção. Acredita-se que fomos reduzidos a apenas 10 mil indivíduos. E, no entanto, não só sobrevivemos como prosperamos.

Hoje somos mais de 7 bilhões de pessoas espalhadas por todos os continentes, todos os climas, todos os ecossistemas. Graças à tecnologia que desenvolvemos desde então, somos capazes de sobreviver ao frio da Antártida e ao ar rarefeito do Everest. Viajamos até outro corpo celeste, a lua, e caminhadas espaciais se tornaram tão comuns que nem chamam mais a atenção das pessoas. Produzimos mais alimentos do que somos capazes de consumir. Dominamos o átomo.

O ser humano é uma espécie extremamente resiliente – para usar uma palavra da moda. E nada indica que, na iminência muito real de uma catástrofe climática, deixaremos de lutar realmente por nossa sobrevivência. Sim, já fizemos muita besteira ao longo da história conhecida, mas se ater aos erros é ignorar todas as muitas coisas boas que criamos (em boa parte com a ajuda dos combustíveis fósseis) ao longo dos séculos.

Ainda em dúvida? Dê uma olhada na sua geladeira. Não dentro da geladeira; na geladeira em si. Na máquina. Pense na maravilha tecnológica que é essa caixa e em como foi difícil, durante milhares de anos, viver sem um equipamento que conservasse os alimentos. Pense em todo o bem-estar que ela gera, em toda a comodidade. E aí se lembre: essa máquina milagrosa causava, até bem pouco tempo, um rombo na camada de ozônio. O que o ser humano fez? Proibiu as geladeiras? Abdicou do conforto? Não. Usou seu conhecimento para aprimorar a tecnologia.

A despeito dos gritos desesperados dos pessimistas.

Arrume seu quarto
O psicólogo Jordan Peterson, numa das recomendações de seu best-seller 12 Regras para a Vida, aconselha o leitor a “deixar sua casa em perfeita ordem antes de criticar mundo ”. Apesar de muita gente torcer o nariz para este tipo de livro (para qualquer tipo de livro, na verdade) e apesar de ser um conselho um tanto quanto óbvio, ele é mais do que necessário nesta época em que todo mundo parece ter uma solução necessariamente autoritária para a crise ou não-crise climática.

Claro que Peterson não está falando da casa em si. Trata-se de arrumar as coisas muito próximas, inclusive a própria psique, antes de se aventurar pelos muitos terrenos pantanosos do debate político-ambiental. Afinal, de que adianta viver em meio a uma mata pristina, bebendo a água mais fresca e gelada diretamente de uma nascente e admirando um clima nem tão quente nem tão frio, se por dentro a alma é furacão num dia, terremoto no outro?

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