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CARTA ABERTA

Deputado propõe fila única de leitos de UTI para atender pacientes da covid-19

FABLICIO RODRIGUES / ALMT

O deputado estadual e médico sanitarista Lúdio Cabral (PT) enviou uma carta aberta aos chefes dos poderes e outras autoridades de Mato Grosso propondo medidas que ainda podem ser adotadas para enfrentar a pandemia da covid-19 no estado. Entre as ações recomendadas por Lúdio, está a criação de uma fila única de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), integrando as redes pública e privada, por requisição administrativa ou contrato de gestão.

Lúdio recomendou também que as equipes da rede de atenção básica à saúde recebam treinamento e equipamentos adequados para atender aos casos leves de covid-19. Ele sugeriu ainda a criação de centros comunitários de isolamento para as pessoas com diagnóstico suspeito e confirmado que morem em casas com poucos cômodos e muitos moradores. O deputado recomendou também ampliar a comunicação institucional para orientar a população.

Outra medida considerada fundamental por Lúdio é ampliar a capacidade de testagem, aplicando o exame RT-PCR em todos os casos suspeitos no início dos sintomas e nas pessoas que tiveram contato, além de realizar inquéritos sorológicos com testes rápidos nas comunidades, com apoio da Unemat e da UFMT, para medir o avanço da pandemia na população.

Lúdio destacou ainda a importância do isolamento social para frear a pandemia, e das medidas econômicas de proteção social para possibilitar que a população cumpra o isolamento. O deputado propõe socorro financeiro às atividades econômicas para preservar as empresas, especialmente as micro e pequenas, além da manutenção dos empregos formais sem redução de salários, auxílio emergencial aos trabalhadores informais e proteção financeira às populações vulneráveis.

“Mato Grosso tem uma das menores taxas de isolamento social do país, hoje na casa dos 30%, e é essencial adotarmos isolamento social rigoroso para alcançar taxas superiores a 70% e reduzirmos a velocidade de disseminação da epidemia. Reduzir 1 ponto percentual na atual taxa de crescimento diário médio do número de casos, hoje na casa dos 5%, significa evitar em torno de 50 mil novos casos nos próximos 60 dias. E apenas o isolamento social mais rigoroso nos permitirá reduzir essa taxa”, explicou.

O deputado citou que as projeções atuais mostram o pico da pandemia entre agosto e setembro. “Estamos próximos do colapso do sistema estadual de saúde, mas estamos longe ainda do pico da pandemia em Mato Grosso. E ainda há tempo de agir e muito a fazer se quisermos preservar a saúde das pessoas, salvar vidas e reduzir o sofrimento do nosso povo. Só não podemos esperar mais um dia sequer”, afirmou Lúdio.

A carta de Lúdio Cabral foi encaminhada ao governador Mauro Mendes, ao presidente da Assembleia Legislativa, Eduardo Botelho, ao presidente do Tribunal de Justiça, Carlos Alberto Alves da Rocha, ao procurador-geral de Justiça, José Antônio Borges, ao presidente do Tribunal de Contas do Estado, Guilherme Maluf, ao presidente da Associação Mato-grossense dos Municípios, Neurilan Fraga, ao prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro, e à prefeita de Várzea Grande, Lucimar Campos.

Leia a carta na íntegra:

CARTA ABERTA AO GOVERNADOR E A TODAS AS AUTORIDADES PÚBLICAS DE TODOS OS PODERES DO ESTADO DE MATO GROSSO.

Senhor governador e demais autoridades,

A pandemia de covid-19 se acelerou em Mato Grosso, os leitos de UTI estão à beira da ocupação total e o pico da curva epidêmica só será alcançado entre agosto e setembro, quando o total de casos confirmados oficialmente será no mínimo dez vezes superior ao observado hoje.

O que fazer agora, então? Haverá algo ainda a ser feito? Temos ainda condições de lutar ou devemos apenas aceitar que fomos vencidos pela pandemia?

Em minha sincera opinião, há muito a ser feito. E é possível ainda vencermos o vírus e evitarmos o sofrimento de milhares de pessoas e muitas mortes.

Em primeiro lugar, mais do que nunca é preciso mobilizar todo o sistema de saúde para o enfrentamento à covid-19, não apenas os serviços de urgência e a rede hospitalar.

A rede de serviços de atenção primária à saúde e seus trabalhadores precisam assumir o protagonismo da luta contra a covid-19. Médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem da família, agentes comunitários de saúde, devem ser a linha de frente do combate à pandemia.

Para dar conta dessa missão, os profissionais da atenção básica precisam de EPIs adequados, oxímetros digitais para cada um dos profissionais da equipe de saúde, acesso rápido a exames de laboratório e imagem, medicamentos, materiais e insumos básicos necessários a esse combate à sua disposição em quantidade e qualidade adequados.

As equipes de atenção primária à saúde precisam receber treinamento específico, em caráter de urgência, para que elas possam realizar com qualidade e no tempo certo o manejo clínico de casos suspeitos e confirmados, tratamento medicamentoso adequado e oportuno, busca ativa de casos, monitoramento de contatos, orientação às famílias, articulação com serviços de referência.

É urgente que se definam protocolos clínicos e de vigilância em saúde bem definidos para a atenção primária à saúde, elaborados por especialistas. As universidades, os conselhos e associações profissionais ao lado de trabalhadores da saúde estadual tem todas as condições de elaborar tais protocolos e realizar o treinamento das equipes de saúde. Precisam ser mobilizados para isso.

Precisamos buscar com urgência as condições para  realizar o exame de RT-PCR em todos os casos suspeitos no início dos sintomas e em seus contatos, além de obter o resultado desses testes com rapidez.

Estabelecer parâmetros, condutas e fluxos para a identificação precoce de sinais e sintomas de agravamento dos casos clínicos e para o seu encaminhamento às unidades de referência de pronto atendimento e de internação.

É essencial a adoção de tecnologias de teleatendimento e de teleorientação da população pelas equipes de atenção primária à saúde. Estou falando de recursos simples como o WhatsApp no contato entre os trabalhadores da saúde, os pacientes e as famílias do seu território de abrangência. Falo ainda da necessidade de interconsulta entre os profissionais da atenção básica e especialistas por meio da telemedicina.

Em municípios ou bairros com maior incidência de casos e com baixa cobertura assistencial, organizar brigadas emergenciais de saúde (médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e agentes de saúde) para realizar atendimento nas comunidades, em unidades de saúde, outros equipamentos públicos, nos domicílios ou por meio da instalação de tendas de atendimento primário emergencial.

Nesses mesmos municípios ou bairros, criar centros comunitários de isolamento para as pessoas com diagnóstico suspeito e confirmado que residirem em moradias com poucos cômodos e ou muitos moradores. As escolas, ginásios, hotéis e pousadas podem cumprir essa tarefa.

Instalar tendas de atendimento primário em saúde em locais de grande circulação e ou acesso facilitado em territórios com alta incidência de casos, tendas que podem servir também como pontos de coleta de material para realização do exame RT-PCR, inclusive na modalidade drive-thru.

Ampliar a comunicação institucional de orientação à população. Rádios, TVs, redes sociais, carros de som, mensagens de SMS e WhatsApp em massa, aplicativos de celulares, linguagem criativa e adaptada aos diversos públicos. Territorializar a comunicação para informar e orientar com objetividade e resultado prático as pessoas.

No âmbito dos pronto atendimentos e das unidades hospitalares também implantar protocolos clínicos atualizados e o treinamento das equipes de saúde.

Potencializar a utilização dos leitos gerais disponíveis, tornando-os leitos intermediários para execução de protocolos de suporte e tratamento na chamada janela de oportunidade, quando se iniciam eventuais distúrbios de coagulação e a tempestade de resposta inflamatória do organismo, que juntas levam ao comprometimento pulmonar e respiratório, de modo a evitar o agravamento dos casos e a necessidade de internação em UTI e a introdução de ventilação mecânica.

Acelerar a instalação de novos leitos de UTI com respiradores adequados nos hospitais regionais e nas unidades de referência hospitalar em Cuiabá e Várzea Grande para atender a demanda crescente de casos graves.

Prover todas as unidades hospitalares dos equipamentos, materiais, medicamentos, outros insumos e exames complementares necessários ao manejo clínico dos casos hospitalizados.

Ampliar com urgência da capacidade para realização de testes RT-PCR em massa e rapidez nos resultados, para todos os suspeitos e seus contatos. Já existe no mundo produção e comercialização de máquinas, reagentes e insumos para a realização rápida e em massa de exames RT-PCR. Cabe ao governo estadual tomar essa urgente providência.

Integrar os leitos de UTI disponíveis na rede hospitalar privada a um processo de regulação unificada, por requisição administrativa ou contrato de gestão, para assegurar oferta maior de leitos e equidade no atendimento à nossa população.

Insisto ainda na maior defesa que temos contra a pandemia, o isolamento social. Mato Grosso tem uma das menores taxas de isolamento social do país, hoje na casa dos 30%, e é essencial adotarmos isolamento social rigoroso para alcançar taxas superiores a 70% e reduzirmos a velocidade de disseminação da epidemia. Reduzir 1 ponto percentual na atual taxa de crescimento diário médio do número de casos, hoje na casa dos 5%, significa evitar em torno de 50 mil novos casos nos próximos 60 dias. E apenas o isolamento social mais rigoroso nos permitirá reduzir essa taxa, quiçá até em mais que 1 ponto percentual.

E o isolamento social precisa ser acompanhado de socorro financeiro às atividades econômicas produtivas, para preservar a saúde das empresas, especialmente as micro e pequenas empresas, a manutenção dos empregos formais sem redução de salários, a renda dos trabalhadores informais e a proteção financeira às populações vulneráveis.

Outra ação necessária e que precisa ser implementada é a realização de inquéritos sorológicos populacionais em todo o território mato-grossense, a cada 7 ou 14 dias, para detectar a presença de anticorpos na população, a taxa real de infecção e cura, medida fundamental para o planejamento da saída gradativa do isolamento social. A UFMT e a Unemat têm pesquisadores e capacidade logística para realizar essa tarefa.

É vital também um esforço de mobilização de todos os entes e poderes públicos, da sociedade civil, empresários e trabalhadores, universidades, especialistas em epidemiologia, infectologia, medicina intensiva, clínica médica, pediatria, saúde mental, para um exercício permanente de diálogo e concertação. Instituir com urgência um comitê estadual e comitês regionais com essa representação para debater os problemas, planejar e coordenar as ações a serem executadas por cada uma das instituições públicas e atores sociais.

Não adianta ainda editar decretos governamentais recomendatórios ou impositivos sem a participação e a escuta de todos os sujeitos envolvidos. Especialmente decretos inócuos para o atual momento, em que já alcançamos a situação de risco máximo em todo o estado.

Por fim, cuidar da saúde física e mental dos trabalhadores da saúde. Assegurar EPIs de qualidade, treinamento, testagem rotineira, ambientes adequados de trabalho e repouso, jornada de trabalho decente, acomodação em hotéis, remuneração justa e proteção previdenciária adicional. Do contrário, logo faltarão profissionais de saúde para a linha de frente, afastados por terem se infectado.

Como disse antes, estamos próximos do colapso do sistema estadual de saúde, mas estamos longe ainda do pico da pandemia em Mato Grosso. E ainda há tempo de agir e muito a fazer se quisermos preservar a saúde das pessoas, salvar vidas e reduzir o sofrimento do nosso povo. Só não podemos esperar mais um dia sequer.

Destaco ainda que todas as iniciativas aqui propostas são absolutamente exequíveis e a maioria em curtíssimo espaço de tempo. À exceção de parte das medidas econômicas, todas as demais encontram-se dentro da capacidade de governo nos âmbitos estadual e municipal, há em Mato Grosso conhecimento técnico-científico, capacidade intelectual e força de trabalho mobilizável para a sua realização, bem como disponibilidade de recursos financeiros.

É por dever de consciência, na condição de médico sanitarista e parlamentar estadual, e me colocando à disposição de todos, que dirijo este apelo na forma de carta aberta a todas as autoridades públicas do estado de Mato Grosso, em especial, ao governador do estado, que detém a honrosa missão de coordenar todos os esforços para o enfrentamento do dramático quadro sanitário, econômico e social que vivemos hoje.

Temos muito a fazer!

Cordiais saudações,

Lúdio Cabral
Médico sanitarista e deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores em Mato Grosso

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