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FUTEBOL BRASILEIRO

Após tragédia no Haiti, jovem reconstrói a vida

Fernanda Trindade

O sonho de vários meninos e meninas em todo o mundo é o de se tornar jogador de futebol.

Em muitos casos, também, o esporte é a maneira mais próxima se recuperar de uma tragédia e reconstruir a vida.

Foi nisso que Badio Stanley Saint Nosier, ou simplesmente Badio, de 20 anos, apostou quando decidiu jogar futebol para tentar a sobrevivência no Haiti.

Após o terremoto que destruiu boa parte do país em 2010, o zagueiro morou nas ruas e passou por dificuldades com a família.

No entanto, com a bola no pé, ele conseguiu chamar a atenção de treinadores e veio parar no Brasil.

Hoje, defende as cores do Athletic, clube de São João del Rei que disputa do Módulo 2 do Campeonato Mineiro.

Para entender como o haitiano assinou contrato com o Esquadrão de Aço para a disputa do Estadual é preciso voltar até o dia 12 de janeiro de 2010. Um forte tremor atingiu o Haiti, às 16h53 do horário local (19h53, no horário de Brasília).

O epicentro foi sentido nas proximidades da capital Porto Príncipe, uma das áreas mais afetadas pelo terremoto.

A tragédia, que matou pelo menos 200 mil pessoas, feriu mais de 300 mil e deixou mais de 4 mil amputados, fez com que o caos se instalasse no país mais pobre das Américas, sobretudo na capital, onde prédios foram destruídos e casas tiveram as estruturas comprometidas.

Badio diz se lembrar bem daquele dia e conta que no momento do tremor estava fazendo justamente o que mais gosta.

– Eu lembro que eu quase morri naquele dia. Eu estava indo jogar bola, com os amigos, e na hora que eu estava chegando, perto da quadra, o vento me jogou muito longe e a muralha que cercava a quadra cedeu – contou.

Diferentemente de muitas casas e prédios que desabaram e vitimaram milhares de pessoas, a casa de Badio não foi destruída.

Porém, ele conta que a incerteza sobre as condições estruturais da residência fez com que ele, a mãe (Luciene Michele) e os irmãos (Dieusel e Dieuffra) fossem morar na rua.

Junto com outras pessoas, eles ergueram uma tenda para se abrigar da chuva.

No entanto, a estrutura improvisada não conseguia proteger as famílias da situação crítica vivida em Porto Príncipe, arrasada pelo terremoto.

A pobreza, já existente na capital haitiana, somada ao caos provocado pela tragédia, teve como consequência o aumento dos índices de criminalidade e a sensação de insegurança.

– Perigo lá não faltava. É como se fosse uma favela, se comparar com o Brasil. A gente corria risco de morte, de bandido nos matar. Um bairro guerreava com outro bairro, até agora existe isso. Fome a gente não passava, porque na época muitos países ajudavam o Haiti – contou.

Badio (sétimo de pé, da esquerda para a direita, mais atrás) agradou aos técnicos do Pérolas Negras, no Haiti. — Foto: Rafael Novaes/Arquivo pessoal

Badio (sétimo de pé, da esquerda para a direita, mais atrás) agradou aos técnicos do Pérolas Negras, no Haiti/ Rafael Novaes/Arquivo pessoal

Depois de um ano, a família de Badio voltou para casa e começou lentamente a reconstruir a vida.

Com as coisas entrando nos eixos, Badio voltou a jogar futebol. Jogador do Mojito, time que não existe mais, ele disputou em 2014 um campeonato na academia do Pérolas Negras, projeto desenvolvido por brasileiros no país.

A equipe de Badio chegou à final da competição justamente contra o Pérolas Negras.

Um dos destaques do campeonato, o jogador foi convidado junto com dois amigos para morarem na academia.

A notícia foi boa para Badio, que iniciou a trajetória no projeto haitiano.

Lá, o zagueiro foi treinado por Rafael Novaes, um dos responsáveis por implementar e desenvolver o projeto.

– Ele chamou muito a atenção. Ótima postura, visão de jogo, alto, técnico, com uma passada larga. Além disso, havia a liderança que tinha sobre os meninos. Ele começou a evoluir demais. É um menino com sorriso fácil, simpático, que a família sempre apoiou – destacou.

Em 2016, Badio recebeu o convite para se mudar para o Brasil, quando o projeto estava sendo expandido para o país.

Ele aceitou, arrumou as malas e viajou com a esperança de dar uma vida melhor para os familiares.

A adaptação, porém, não foi fácil. Dentro de campo, o defensor considerou o futebol brasileiro mais dinâmico. Ele demorou a pegar o ritmo.

Fora dele, teve algumas dificuldades com o idioma, o clima – sofreu com o frio por ter chegado ao país perto do inverno –, e com a saudade da família.

Além do carinho dos irmãos, Badio diz que sentiu falta da comida da mamãe. Segundo ele, a culinária no Brasil é muito diferente da que ele estava acostumado no país de origem.

– É bem diferente mesmo. O gosto é muito diferente. No meu país eu gostava de comer uma comida que minha mãe fazia em casa, se chama Diri kole ak pwa – arroz misturado com feijão, cozido. Nunca vi isso no Brasil. Depois eu venho me acostumando. Eu adoro arroz branco com feijão preto e gosto de frango. Pode ser assado, cozido, de qualquer jeito – destacou.

Ex-técnico do time sub-20 do Tupi, Wesley Assis treinou Badio no sub-20 do Pérolas Negras em 2017. Como era menor de idade, o jogador esteve no grupo campeão da Série C do Rio de Janeiro, mas não pôde jogar. No entanto, Assis elogiou o comandado, dentro e fora do campo.

– Jogador com qualidade, com boa índole, agregou muito ao projeto, É bom vê-lo trilhar os caminhos no profissional. Mesmo de longe, estou torcendo muito por ele – disse.

Depois da experiência no Pérolas Negras, Badio recebeu no fim de 2019 uma proposta para defender o Athletic, time de São João del Rei, no Módulo 2 e chegou por empréstimo.

O zagueiro tem sido reserva, mas estreou diante do Tupi na derrota por 2 a 1, pela quinta rodada da competição.

Ele afirma que, independentemente de estar jogando regularmente ou não, está muito feliz com o momento.

Com a paralisação das atividades em prevenção ao contágio do coronavírus, o jogador foi liberado para ficar com a mãe em Resende, no Rio, onde ela mora há nove meses.

Badio jogou contra o Tupi em Juiz de Fora, pela quinta rodada do Módulo 2 — Foto: Fernanda Trindade

Badio jogou contra o Tupi em Juiz de Fora, pela quinta rodada do Módulo 2/ Fernanda Trindade

– Eu posso falar que essa experiência que estou vivendo aqui no Athletic é inesquecível. As coisas que estou aprendendo aqui, nunca mais vou esquecer. Estou muito feliz, principalmente com o carinho com que eles me receberam, a confiança que me deram. Acho que isso vai me ajudar muito ainda na minha carreira como jogador – fechou.

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