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MELHOR DOCUMENTÁRIO

O Oscar de 'Indústria americana'

Julia Reichert e Steven Bognar recebem o Oscar de Melhor documentário por 'Indústria americana' — Foto: Chris Pizzello/AP

Dayton, no estado de Ohio, foi a primeira cidade que conheci nos Estados Unidos.

Àquela altura, já tinha morado em Londres, esquadrinhado Paris mais que a maioria dos nativos, visitado Itália, Alemanha, Espanha e vários países europeus, palmilhado a Terra Santa de alto a baixo, até ajudado a derrubar o Muro de Berlim.

Mas, por um misto de preconceito e falta de oportunidade, jamais tinha posto os pés em solo americano.

Em vez Nova York, Los Angeles ou Miami, fui parar por acaso naquela cidadezinha do Meio-Oeste, onde a pujança do país mais poderoso do planeta era evidente ao olhar de um brasileiro. Fiquei maravilhado.

Canais de televisão do mundo todo, naquela época uma raridade por aqui, estavam disponíveis na casa de fazenda onde me hospedei.

Frutos do mar frescos chegavam todo dia do litoral. Empresas gigantescas, como GM ou NCR, mantinham instalações e fábricas por lá.

Ao mesmo tempo, o provincianismo se fazia notar no orgulho com que os habitantes se referiam às atrações locais, fosse a fazenda onde morara o Coronel Dillon (cientista e fundador da empresa de telecomunicações), fosse o museu que homenageava os mais célebres filhos da cidade, os irmãos Orville e Wilbur Wright.

De modo ingênuo, tentei explicar a alguns por que talvez não tivessem sido eles os inventores do avião, quando obviamente deveria ter ficado quieto.

Dayton é também, por outro acaso, a cidade onde se passa Indústria americana, documentário agraciado com o Oscar ontem à noite.

Os autores, Steven Bognar e Julia Reichert, relatam como o local onde funcionava a fábrica da GM devastada pela crise financeira de 2008, bem perto da casa de fazenda onde me hospedei, foi transformado, entre 2015 e 2017, na filial da fabricante de para-brisas chinesa Fuyao.

Um documentarista pode adotar duas atitudes diante da realidade. A primeira é narrar uma versão pessoal dos fatos, colocar-se no centro dos eventos. Em alguns casos, como Citizenfour (2014), de Laura Poitras, é não apenas a atitude recomendada, mas a única possível – já que Poitras e o jornalista Glenn Greenwald foram de fato protagonistas no vazamento de milhares de documentos da inteligência americana pelo delator Edward Snowden.

Noutros, como os vários documentários do ativista Michael Moore ou mesmo Democracia em vertigem, da brasileira Petra Costa (derrotado ontem), é um escolha controversa. O juízo próprio sobre fatos históricos embute necessariamente viés ideológico, pode distorcê-los e contribuir para afastar a audiência da verdade, em vez de, como deveria almejar todo documentarista, aproximá-la.

Bognar e Reichert, também filhos de Dayton e autores de um documentário anterior sobre o fechamento da fábrica da GM em 2009, tinham diante de si uma escolha. Poderiam ter adotado o olhar subjetivo, incensado como inevitável por filósofos e teóricos do movimento que se convencionou chamar de “pós-modernismo”.

Em vez disso, preferiram se manter afastados da narração e adotar o ponto de vista conhecido como “mosca na parede” – aquela que tudo vê, mas de nada participa.

Em entrevista ao casal Barack e Michelle Obama, cuja produtora lançou Indústria americana, eles justificam a escolha. Não é que não tenham lado ou opinião.

Quem repete, ao receber o Oscar, a frase de Marx e Engels “operários do mundo, uni-vos” não está tão distante ideologicamente de Petra, Moore ou Greenwald. Mas sabem que, justamente por terem opinião, devem ter consciência de quanto ela não deve contaminar os fatos, para o trabalho não se afastar da verdade.

O que mais impressiona em Indústria americana é o êxito ao relatar os dois lados da história, o chinês e o americano. Com acesso aberto pela Fuyao à instalação da nova fábrica, eles apresentam as reuniões, os dilemas dos funcionários e da nova diretoria, os fracassos e conflitos.

Vão até a China com os gestores americanos da empresa para decifrar as origens do choque cultural.

Os chineses fumam, são mais detalhistas e dedicados, não se incomodam em trabalhar longas jornadas nem em tirar férias ou garantir direitos trabalhistas.

O objetivo deles é a produtividade. Os americanos são mais gordos, mais descuidados, quebram vidros recém-fabricados, exigem o respeito a normas incompreensíveis aos criados sob o capitalismo de Estado.

O objetivo é o bem-estar. As duas visões se chocam no clímax do documentário, a eleição que decidirá se a nova fábrica adotará um sindicato.

Ao longo do filme, Bognar e Reichert procuram manter a mesma distância, a mesma isenção que caracteriza o bom jornalismo. Entender o “outro lado” não é um discurso que adotam da boca para fora, como tantos repórteres, mas um esforço genuíno de se colocar no lugar dos antagonistas. O resultado é excepcional.

Traduz de modo maduro, competente, até exasperante a realidade complexa da globalização e da interdependência sino-americana.

O mundo não é simples, as pessoas não são simples, a verdade não é simples. O documentário de Bognar e Reichert comprova que, embora difícil, não é impossível chegar perto dela.

Para isso, é preciso ter a coragem de enfrentar a diferença, de entender para valer como pensa quem realmente discorda, em vez de manter a cabeça recostada no conforto das próprias ideias e da própria voz.

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ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO

  • 10 de fevereiro de 2020 às 18:14:27